5:40 am
- Droga! já é hora!
Ele se senta na cama. Olha torto para o homem que dormia na cama de cima, e estremecia o quarto a cada 6 segundos com seu ronco ensurdecedor, mas parecia que as outras 6 pessoas no quarto daquele hostel, não se importavam tanto quanto o recém desperto. Depressa ele levanta, põe sua roupa, sente uma sensação estranha correr o corpo, parece ser o que chamam de frio. Ele nunca havia experimentado essa sensação de forma consciente. Ele pega sua mochila, única companheira em meses. Abre a porta, olha uma última vez aquele quarto - Minha última noite em solo Irlandês - sai e deixa a porta se fechar só, atrás de si.Ele havia viajado até Galway para fechar o ciclo de viagens pelas terras irlandesas, e para tirar uma dúvida - Será mesmo que a maioria das garotas em Galway possuem olhos azuis e cabelos pretos? - Como haviam lhe dito, um fenômeno curioso acontece em Galway, a maioria das garotas dessa cidade são como a garota da canção de Steve Earle. Cabelos pretos e olhos azuis. No fundo ele queria mesmo era encontrar a sua Galway girl. Isso aconteceu muito depois, mas não foi em Galway.
Seu destino era Edinburgh, Escócia, naquele dia. Galway fica na costa oeste da Irlanda, Edinburgh fica na costa leste da Escócia. Tudo que ele tinha era um ticket de trem até Dublin, Irlanda, um roteiro em sua cabeça e a certeza que dormiria aquela noite na terra de Willian Wallace.
Às 6:10 am ele embarca para Dublin que fica na costa leste da Irlanda. A Irlanda é um país pequeno, após 3 horas e 40 minutos no trem ele desembarca na estação Connolly. Dalí segue de Luas (VLC's que circulam toda Dublin de forma muito eficiente) para a estação Heuston. Até aquele dia ninguém havia lhe cobrado qualquer ticket.
- Olá bom dia garoto! Por favor, deixe-me validar seu ticket.
- Claro.
- Esse ticket não é válido para o Luas.
- Veja senhor, aqui diz que posso pegar qualquer transporte durante todo o dia na Irish Rail.
- Você tem razão. Mas o Luas não faz parte da rede férrea, ele é um transporte urbano. E por isso seu ticket não é válido. Você terá que pagar uma multa de 150 euros por transitar sem o ticket.
- Mas onde há a informação que o Luas não faz parte? Bom, não vou discutir com o senhor. É o seu trabalho, só posso lhe pedir desculpas, eu sinceramente não sabia, como procederemos então?
- Pra onde você está indo garoto?
- Pretendo chegar em Edinburgh até o fim do dia.
- Está indo para o aeroporto, então.
- Não senhor, vou tomar um ônibus para Belfast e de lá pretendo cruzar o mar do norte.
- A nado? - Risos -
- Se for preciso. - Risos - Mas, não. Ouvi dizer que há um navio que zarpa de Belfast rumo a Glasgow, de lá pretendo tomar outro trem até Edinburgh.
- Você tem uma longa jornada pela frente garoto, admiro sua disposição e duvido muito do seu sucesso nessa empreitada. Pois bem, não serei eu um empecilho, acho que você encontrará muitos outros. Façamos um acordo, tudo bem? Você vai descer em Heuston e comprar um ticket do Luas, e vamos esquecer a multa.
- Feito. Muitíssimo obrigado senhor.
- Seja honesto, e boa viagem garoto!
- Obrigado, e tenha um ótimo dia senhor.
Ele desceu e comprou o Ticket.
Seis horas e meia depois ele desembarca na estação central de Belfast, 20 minutos antes do navio zarpar do porto de Belfast, o mesmo de onde zarpou o Titanic. Mas o porto ficava a 15 minutos e o próximo ônibus sairia em meia hora. Ele perdeu o Navio para Glasgow.
- Não tenho reserva em nenhum hostel, além do hostel em Edinburgh. Hoje é quinta feira qualquer hostel estará o dobro do preço, preciso chegar a Edinburgh.
Uma funcionária da estação estava passando.
- Por favor senhora, preciso chegar em Edinburgh ainda hoje, além do navio que sai do porto todos os dias às 16:30, há algum outro navio, lancha, bote ou qualquer coisa que cruze o mar?
- É melhor você ir até o porto, lá eles lhe informarão melhor.
Quarenta minutos depois ele desembarcava no porto de Belfast. O cheiro de mar tomou-lhe o naris como jamais havia acontecido, gaivotas voavam sobre sua cabeça. Ele correu até uma bilheteria.
- Senhor, há qualquer transporte para qualquer cidade escocesa ainda hoje?
- Está fugindo da polícia garoto? - risos sem dente.
- Não senhor, na verdade não quero fugir dos meus planos. - risos com dentes.
- Sendo assim, há um navio saindo em 40 minutos. Mas é um cruzeiro, passará por Glasgow ainda hoje.
- Certo, de lá eu me viro. Me venda um ticket. Quanto me custará?
- Não faço idéia garoto, não vendo ticket apenas retiro e valido. Você pode comprá-los pela internet.
- Ótimo! Era só o que faltava, onde vou arrumar uma conexão aqui?
- Há um café dentro da área de embarque.
- E como chego lá?
- Precisa de um ticket, você não comprou nenhum?
- Não senhor.
- Tente conectar do lado de fora, é de graça.
- Obrigado.
Em pé, se equilibrando com uma mochila de 27 kg nas costas e um note book na mão, ele comemora feliz a compra.
- Pronto preciso retirar meu ticket, consegui comprar.
- Ok, preciso da guia impressa.
- Como assim? Não tenho como imprimir, só possuo o número.
- Você vai me complicar garoto, não costumo fazer isso, mas qual seu nome?
- Obrigado senhor, é Weivson.
- Que raios de nome é esse? Com esse nome você poderia cruzar o mar surfando! - Risos sem dentes e ensurdecedores.
- Tome. Lembre-se de retirar seu ticket de trem, de Glasgow para Edinburgh, na estação. E tome cuidado você precisará trocar de estação em Falkirk, e terá apenas15 minutos pra isso. A pé, sem pressa, levará 10 minutos caminhando.
- Meu deus isso vai dar merda.
- O que disse garoto?
- Desculpa praguejei em minha língua.
Risos sem dente - Boa sorte garoto, e seja lá do que está fugindo, saiba que nunca é longe o suficiente.
- O senhor já ouviu falar de um jogo chamado RPG?
- Não gosto de jogos, mas o que quer dizer?
- Esqueça isso, apenas me senti no jogo agora. Obrigado e boa noite!
Na área de embarque sua aflição aumenta. Não há mais ninguém. Todos já haviam embarcado. Faltavam apenas 5 minutos para o navio zarpar. Ele entrou em um túnel cumprido. No fim do túnel havia apenas mais um corredor. Uma buzina grave soou do lado de fora. Era o navio zarpando, ele sabia. Ela soou mais 4 vezes. Desespero. Medo. Raiva. Frustração. Ele tinha certeza, perdera o navio novamente.
A sua volta havia apenas lojas, uma praça de alimentação e todo tipo de pessoas caminhando. Havia também uma mulher de uniforme, parecia trabalhar ali.
- Senhora, desculpe. Me ajude. Sabe como chego até lá? - Ele mostra a mulher o ticket.
- O que procura exatamente senhor?
- Quero pegar esse navio.
- O senhor procura algum lugar específico?
- Sim, embarcar.
- Desculpa senhor não compreendo. O Navio zarpou há 15 minutos.
- Sério? Droga!
- Mas se é um assento que procura, fique a vontade. Se quer um lugar mais reservado, após a praça de alimentação há poltronas perto das janelas, o senhor pode observar o céu, nessa época é comum avistarmos um resquício da aurora bureal, de alto mar. Talvez o senhor tenha sorte.
- Você disse alto mar?
- Sim senhor, alcançaremos em 10 minutos, já que zarpamos há 15 como lhe disse.
Alegria. Euforia. Felicidade. Excitação.
- Obrigado, senhora.
Ele saiu aliviado, procurando uma janela. Não podia acreditar que estava em um navio.
- Como é possível? isso é um navio? Achei qeu haveriam poltronas numeradas. Há um shopping aqui dentro.
Ele caminhou por todo o "shopping" atravessou a praça de alimentação e sentou-se próximo a uma janela. Dali ele pode avistar a costa Irlandesa ficando para traz. Ele havia deixado aquela terra sem perceber. Sentiu um nó na garganta. Uma tristeza lhe tomou conta do peito. Chorou, ao sentir que ela fizera tudo para que ele não partisse, mas que foi cuidadosa ao deixa-lo ir sem que percebesse. Arrepiou-se ao imaginar que ela lhe acenava um adeus. Ele amou aquela terra antes de pisa-la. Ele esperou ansioso o dia de seu encontro. É ali que ele quer repousar, um dia.
Minutos depois sentiu o balançar do navio, leve mas constante. Sentiu um enjoou. Estava com fome e comeu. Se arrependeu, mas ficou bem. Já estava em alto mar.
Uma hora e meia depois desembarcou em Glasgow. Pediu informação sobre onde poderia tomar o trem para Edinburgh. Lhe deram uma informação errada, que quase o fez perder o trem novamente. Lembrou-se que precisaria retirar o ticket para o trem.
- Droga, como assim preciso estar com o cartão de crédito que comprei a passagem?
- Sim senhor, é simple é só apresentar o cartão.
- Mas foi minha mãe que comprou pela internet para mim. E ela está no brasil.
- Bom, sendo assim. É... nossa, como é possível? - O homem tentava entender a situação, pareceu não estar habituado com esses "jeitinhos".
- Sim é possível, minha mãe comprou pra mim e eu retirei o de navio, e agora quero retirar o de trem. - Na verdade ele mesmo havia comprado o ticket, mas com os dados de cartão da mãe.
- Ok, tome e corra porque o trem está saindo. - O homem demonstrava ter desistido de tentar entender, mas deu o ticket.
Após embarcar em um trem que julgou ser fantasma o garoto procurou um lugar quente para ficar. Ele não estava habituado com a falta de calor. Já havia pego baixas temperaturas, mas não havia sentido o que estava sentindo. Falta de calor em seu corpo. Não comera nada, andou muito. Muito stress, nervosismo. Não havia ninguém no trem, exceto uma senhora na última fileira. Ele se sentou e exausto adormeceu. Minutos depois acordou com uma gargalhada sinistra. O trem estava cheio. Perdido no tempo e no percurso ele se informou.
- Já Passamos de Falkirk, senhora?
- Ainda não. todos desceremos lá. A esta hora esse trem só vai até lá.
Minutos depois ele desceu em Falkirk, seguiu para a outra estação como se soubesse onde era. Apenas desceu do trem se informou quanto a direção e foi. Seguro. Certo de que estava no caminho correto, sem questionar seu não conhecimento da cidade. Ele foi. E chegou 5 minutos antes do trem partir. A noite estava alta, passava das 22h, estava muito frio. Falkirk é uma cidade de interior. Velhas construções, ruas estreitas. E muitos pubs pelo caminho até a estação.
Após quase uma hora dentro do trem, todos dormiam. Ele olhou pela janela, o trem parava em uma estação, das muitas pelo caminho. Ele ouvia "Man of the hour" do Pearl Jam. Especificamente o verso que diz "A snow flakes falls in may". Nesse instante como em um passo de mágica ou uma cena dirigida de um filme, pela primeira vez em sua vida ele viu um floco de neve caindo. Seu primeiro floco de neve.
- Se eu contar isso ninguém vai acreditar! É muito perfeito pra ser verdade! Caramba é NEVE!
Uma senhora que estava do lado, adormecida acordou com o falatório autista do garoto. Assustada ela olhou imediatamente para a direção da janela, para onde o garoto olhava de olhos regalados, um sorriso trouxa e um dedo apontado.
- It's Snowing! - A senhora olhou pra fora e praguejou. Todos pareciam muito decepcionados com o fato de estar nevando. Menos ele. Eles estava eufórico, feliz. Queria descer ali mesmo pra dançar na neve, fazer anjinho no chão. Aparar com a boca um monte daqueles floquinhos que caiam. Mas ele se conteve, e a pesar de surpreso, em princípio, com a decepção de todos no trem, compreendeu o motivo deles. Esperou ansioso a chegada em seu destino.
Desembarcando em Edinburgh procurou logo sair da estação. A primeira coisa que fez foi se jogar em um monte de neve que havia logo na saída. Todos olhavam desconfiados para o louco que se jogava num monte de neve, mas ele não se importava. começou então sua caminhada a procura do hostel. Mas beirava a meia noite o transito nas ruas era de arruaceiros voltando de festas, ao que parecia, regadas a muito álcool. Os carros transitavam com dificuldade. As pessoas também. Mas havia um maluco patinando na neve, caíndo e levantando feliz. Parecia mais embriagado qeu os arruaceiros. Ele estava muito feliz! Ele não se importava. Mas caminhou muito, não encontrou hostel, estava deslumbrado demais para achar algo naquela cidade.
No outro dia ficou feliz de ter chegado de noite e não ter percebido a vista hipnótica do lugar onde havia desembarcado. Ele desistiu e chamou um táxi.- Me leve ao hostel mais próximo, por favor. - Pela primeira vez andava nos típicos táxis do Reino Unido.
" EU CONSEGUI, cruzei um mar e dois países de costa a costa, em apenas um dia. Por terra e mar! Faço essa anotação e vou me deitar tranqüilo, exausto, porém feliz e com a melhor sensação do mundo. A da CONQUISTA
Edinburgh - Escócia
00:15 27 de novembro de 2010"


