
Bruges - Bélgica
Em alguma noite do mês de outubro
Depois de caminhar por todo o dia pela pequena e medieval cidade de Bruges, ele resolve prosseguir em sua dieta inédita e premeditada. Chocolate e cerveja, por uma semana. - Há cerca de 150 cervejas diferentes só nessa cidade, e mais de 30 fábricas do melhor chocolate do mundo. Por que eu haveria de comer outra coisa? - Caminhou por mais duas ruas pavimentadas por pedras, como cerca de 90% da cidade, rodeado de prédios antiqüíssimos e igrejas góticas, além das construções mais antigas que já teve contato.
Entrou num pequeno Pub enterrado no chão. A porta era estreita e pequena, muito baixa mesmo. Ele já estivera ali, por três vezes. Haviam muitas opções de cerveja, todas expostas em prateleiras de madeira, pareciam ser muito antigas. Ele sentou-se em frente ao balcão, daqueles que aparecem nos filmes. Ele sempre quis sentar-se nesses lugares onde você fala diretamente com o garçom, que seca os copos com um pano o tempo todo, e sempre sentia a mesma sensação. - Me sinto em um filme! - Pediu uma cerveja para a mesmo moça dos três dias anteriores.
- De onde você é rapaz?
- De onde você diria que sou?
- A julgar pela curiosidade com que bebe, não diria que é nem Irlandês, nem alemão e tão pouco belga, mas acho que você é Italiano.
- Não, passou longe.
- Catalão, acho, pelo sotaque. - Ela lhe serviu a cerveja.
- Meu sotaque? Sério? Que engraçado! Mas errou de novo.
- Então vamos tentar pelo seu nome, qual o seu nome?
- Você não descobrirá pelo meu nome. - Ele sorriu e a fez rir com seu nome.
- Você deve ser americano, então, havaiano provavelmente, mas com essa cara e essa cor?
- Sou Brasileiro - A moça de olhos grandes e pele corada, ficou vermelha e com os maiores olhos que ele já havia visto, até aquele dia. Ele bebeu sua cerveja, enquanto ela sorria sem graça.
- Jamais diria. Já vi alguns brasileiros por aqui, mas nenhum se parece com você. Como é o seu país?
- HEY KID.LONG HAIR, WITHOUT RESPECT. COME HERE!
Uma voz trêmula, esbravejou em um canto pouco iluminado do Pub, rimando, quase cantando. Era amistosa, mas ameaçadora também.
- Pode ir lá rapaz, depois continuamos nossa conversa.
- Acho que se eu for não haverá depois - Ele disse sorrindo e desconfiado.
- Pode ir, esse é o (não me lembro o nome mas vamos chamá-lo de Wallace).
- VENHA GAROTO, EU NÂO TENHO MAIS DENTES PARA MORDÊ-LO ENTÃO NÃO SE PREOCUPE.
O Dono da voz estava sentado em duas cadeiras, uma banda de bunda em cada uma. Ele era da largura da mesa que sustentava cerca de 12 canecas de 1 litro de cerveja. Vazias. Aparentava ter cerca de 2m e alguns centímetros, e certamente pesava mais de 150kg. Cultivava uma barba ruiva que, de tão grande, repousava sobre sua enorme barriga. Tinha cabelos bagunçados e muito ralos, porém longos. Parecia ter acabado de ficar sob um sol de 40 graus, de tão vermelho. Me lembrou o personagem do Mel Gibson em coração valente, mas 80 kg mais gordo e 20 anos mais velho.
- Sente-se aqui, menino! - Muito desconfiado e extremamente sem graça ele sentou olhando para a moça no balcão, enquanto ela acenava positivamente com a cabeça.
- Então, em que posso te ajudar, senhor?
- Ajudar? Você não está em condições de ajudar ninguém, garoto. Te observo por três dias e tenho uma curiosidade que me consome. Me responda, porque desrespeita a todos bebendo sua cerveja dessa maneira? Você sabe o trabalho que dá produzir um líquido tão saboroso quanto esse? Por que bebe como se bebesse água, que é insípida e sem graça? Vamos! - O velho ergueu a mão e esbravejou!
- Traga uma cerveja pro garoto! - Veio então a moça com uma caneca de 1L e colocou em cima da mesa, rindo baixinho.
- Vamos menino, vou lhe ensinar a beber. Preste bastante atenção, não gosto de repetir as coisas, as não ser as canecas. Você deve aprender a beber, mas já deve saber parar antes de começar. Você conhece seu limite?
- Não senhor, nunca bebi tanto. - O velho o olhou sério por alguns minutos, muito sério. Deu-lhe um tapa nas costas e gargalhou, estremecendo a mesa com todas as canecas vazias.
- Por um segundo achei que você falava sério garoto! Você é um comediante, gostei de você. - Embora acompanhasse o velho em sua risada o garoto falava sério, nuca havia bebido a ponto de embriagar-se, na verdade nunca havia bebido mais que 4 latinhas de cerveja consecutivas.
- Vamos pegue sua caneca e preste atenção. Solte todo o ar em seus pulmões. Agora coloque a caneca na boca e beba respirando o ar dentro dela. NÃO ENGULA AINDA! Mantenha a cerveja em sua boca por 3, 4, 5 segundos. Agora sim, deixe-a escorrer para dentro das suas entranhas. Suavemente. Agora solte o ar com a boca fechada, e sinta o aroma e o gosto da cerveja. Percebe? O sabor evolui, ele muda e você sente um por um.
- MEU DEUS! É FANTÁSTICO! É como se houvesse um mistério escondido dentro de cada caneca, e só desvendei agora!
- Isso mesmo, menino. Viu? É mágico! Você agora tem a chave do mistério. Aproveite cada gole!
E ali ele ficou por algumas horas, não conheceu o seu limite nesse dia, mas conheceu um dos mistérios que mudou sua vida.Nunca mais bebeu cerveja da mesma forma.
Nunca mais encontrou o velho alquimista detentor do conhecimento etílico.
Nuca mais foi o mesmo, mas continuou se alimentando de chocolate e cerveja.
E também nunca descobriu como aquele velho conseguiu passar por aquela porta tão estreita.
Talvez seja este outro mistério.
Talvez seja esse o motivo do conhecimento apurado, talvez o velho esteja encerrado naquele lugar.
Ou talvez ele tenha entrado um garoto, quando ainda passava pela porta, descobriu um mistério dentro de uma garrafa e nunca mais saiu.
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