terça-feira, 22 de novembro de 2011

Andando entre gigantes

Era como um sonho. Na verdade ele nunca achou que passaria disso. Um sonho. Chegou a pensar que sua vida era uma farsa e assim como em "O SHOW DE TRUMAN" todos ao seu redor eram atores, e que tudo não passava de uma encenação inescrupulosa. Mas a cada minuto, a cada acontecimento, a cada instante o que era sonho se moldava real.

- Atenção senhores passageiros, pouso autorizado no aeroporto internacional Schiphol, Amsterdam. A temperatura em terra é de 11 graus...
Após 14 horas de vôo ele desembarcou em um aeroporto muito diferente do que esperava. O dia estava cinza, a luz que esperava ver não era assim, tão diferente - "dizem que a luz é diferente no hemisfério norte" - De fato era, mas ele descobriu isso depois.
Caminhando pelo corredor do aeroporto, apressadamente, seguindo o fluxo e não sabendo porque tinha pressa, ele olhava para fora e tentava identificar algo diferente, algum objeto, algum veículo - A vegetação, sim a vegetação tem que ser diferente - mas era difícil ver algo verde dali. Após alguns minutos caminhando e se misturando a outros grupos, que também caminhavam com uma pressa inexplicável, ele pode perceber que já não estava mais em sua pátria, com seu povo, com a sua língua. BABEL! Foi a primeira palavra que saltou em sua mente. Inúmeras línguas, e a cada passo mais uma pessoa diferente, mais uma língua, mais uma .... mais uma.
Descobriu, então, o motivo de tanta correria. Ele havia se misturado às pessoas que fariam conexão naquele aeroporto. Foi seu primeiro deslize e também o seu primeiro golpe de sorte, que ele prefere chamar de "cuidado divino". Naquele mesmo dia 3 pessoas foram deportadas, sem nenhum motivo aparente. Ele estaria nessa fila se não tivesse se perdido.
Após uma exaustiva, curiosa, decisiva e quase frustrante conversa com quem ele gosta de chamar de "O GUARDIÃO DAS FRONTEIRAS", (que merece um post exclusivo) passou para uma ala diferente do aeroporto. Agora há menos pessoas transitando, tudo está calmo e a tensão nos olhares deram lugar aos sorrisos e olhares vislumbrados.
- Onde está minha mala?
Após quase uma hora decorrida do seu desembarque as esteiras com as malas já haviam mudado. Mais uma vez ele foi uma exceção. Painel após painel, esteira após esteira, e nenhum sinal da sua mala. Haviam cerca de 30 esteiras no aeroporto, e na penúltima havia um objeto preto, maciço e solitário se movimentando em loop. - Finalmente! - Ele colocou sua mochila nas costas e rumou a saída da área de desembarque.
- Ei garoto, onde você pensa que vai?
Uma voz firme e severa o alcançou.
- Você precisa passar pela inspeção. Por que demorou tanto pra buscar a sua mala?
- Eu me perdi, depois fiquei muito tempo na imigração e já não sabia mais em qual esteira estava a minha mala.
- Coloque-a no raio X... O que é isso aqui?
O homem de voz grave apontou para 4 cubos brilhantes na tela.
- São... como posso dizer? Haammm... é... bolsas de temperatura... não, isso não faz sentido... é...
- Tire-os da mala por favor.
Sorrindo sem graça, o que agravava ainda mais sua situação, nervoso e com cara de "isso não ta acontecendo" tirou da mala 4 cobertores térmicos.
- Ah garoto! Você quase me matou de susto, esta vendo aqueles dois senhores ali? - O homem de voz firme e severa apontou para dois oficiais que seguravam tasers e observavam tudo de perto. - Pensei que finalmente daria a ordem que eles esperam há dias. Sabe, eles estão doidos pra usar os novos brinquedinhos. - Pensamentos dúbios passaram como raios pela mente, mas o garoto de cara assustada e mãos trêmulas tratou de afastar aquela interpretação que o faria escarnecer dos oficiais e daria o tão esperado motivo para eles usarem seus "brinquedinhos". Ele sorriu cinicamente, pegou sua mala e finalmente saiu da área de desembarque.

Uma visão lúcida
O cenário mudou novamente, o clima agora era de rotina. Como se tudo que acontecia naquele instante acontecesse o tempo todo. Ele parecia se esforçar em agir de forma rotineira, como se estivesse acostumado a aquele comportamento. - Impossível! Olha pra essa gente! Meu Deus de onde saíram essas pessoas? - Boca aberta, olhar vislumbrado e passos errantes. Sem destino. Sem direção. Ele vagava de um lado pra outro encarando todos tentando se passar por um local. Ele fitou uma mulher, se aproximou. E como uma criança prestando atenção em uma conversa de adultos, se olhava e olhava para a mulher, que ao perceber sorriu educadamente. Um homem passou muito perto, esbarrou em sua mochila, quase o derrubou. O antebraço do homem tinha a mesma medida que a metade do corpo do pequeno garoto vislumbrado.

A Visão do garoto
- Agora sim! Não acredito, eu consegui! Eu entrei! E agora? O que eu faço? Preciso parecer normal. Vamos tire esse sorriso da cara, vai! Aja naturalmente! EITA PORA! Olha o tamanho da cabeça daquele Throll! Meu Deus é o shrek albino! Puta que os pariu! Parece que todos aqui acabaram de sair de um jogo de basquete. Olha a versão loira do Shakille O'neal. Pra que esse exagero de corpo? Quanta gente diferente! Quanta gente igual! Que raios de alimentação esse povo teve na infância? Será que foi daqui que saiu o Biotônico Fontoura? São GIGANTES! É isso. Eu sabia, estava tudo parecendo real demais. Pára, não viaja não. Volte pra realidade. Olha aquele lá, parece o ciclope da saga do Odisseu. Nossa, lá vem o Hangrid! Queria que vissem esse cara, nunca mais me comparariam a essa figura. E o nariz daquela mulher, se ela vivesse na idade média não precisaria de lança para vencer uma justa. Deus, eu sou a menor pessoa nesse aeroporto, me sinto o próprio mico leão perto desses king kongs albinos! E olha lá, o Hangrid ta vindo na minha direção. Caracas, deixa eu ficar perto dessa mulher aqui. Nossa é a gigante mais linda que eu já vi. Ta certo que vi a primeira há menos de 10 minutos, mas ela é perfeita. Eu acho que precisaria de mais uns 20 centímetros de altura pra beijar o queixo dela. Quantos centímetros a mais eu precisaria ter para fazer essa mulher perceber que estou adentrando sua cavida... PÁRA cara! Que pensamento imbecil! Ei Hangrid, você está perto demais. Ei! Eita caralho! Filho da puta! Será que sou tão pequeno que ele não me viu! Talvez ele sinta, ao passar por cima de mim, aquela sensação quando pisamos em algo que estala e quebra embaixo dos nossos pés.

O garoto chegou em seu destino, levou alguns minutos para começar a se acostumar com a idéia de que era apenas um pequeno transeunte naquela imensidão de pessoas, em todos os sentidos. Sua jornada só estava começando, muito e muitos esperavam por ele. Mas as fantasias em sua cabeça não paravam e ele levaria um tempo, ainda, para perceber que o que ele julgava fantasia era agora a realidade. Ele pegou um trem, não pagou a passagem pois achou que era de graça, foi seu segundo deslize, e mais uma vez a sorte ou o "cuidado divino" sorriu pra ele, e permitiu que passasse ileso pela multa de 150 euros para quem transita sem bilhete nos trens.



...A caminho do hostel:

- Ah, vocês não me enganam. Acham mesmo que caí nessa? Eu sei que, enquanto eu estava preso naquela cápsula que vocês insistem em dizer que voa, vocês projetavam imagens nas telas de led, sim aquelas que vocês chamam de janela, e modificavam todo o cenário do lado de fora, pra fazer parecer que eu desceria em um outro país. Poxa vocês não economizaram no ar condicionado hein? Bom, e deve ter dado um trabalhão achar esses atores dessa altura. Eu só queria descobrir onde estão as câmeras...

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