sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cruzando um mar e dois países, de costa à costa, em um único dia.

Galway - Irlanda
5:40 am

- Droga! já é hora!

Ele se senta na cama. Olha torto para o homem que dormia na cama de cima, e estremecia o quarto a cada 6 segundos com seu ronco ensurdecedor, mas parecia que as outras 6 pessoas no quarto daquele hostel, não se importavam tanto quanto o recém desperto. Depressa ele levanta, põe sua roupa, sente uma sensação estranha correr o corpo, parece ser o que chamam de frio. Ele nunca havia experimentado essa sensação de forma consciente. Ele pega sua mochila, única companheira em meses. Abre a porta, olha uma última vez aquele quarto - Minha última noite em solo Irlandês - sai e deixa a porta se fechar só, atrás de si.
Ele havia viajado até Galway para fechar o ciclo de viagens pelas terras irlandesas, e para tirar uma dúvida - Será mesmo que a maioria das garotas em Galway possuem olhos azuis e cabelos pretos? - Como haviam lhe dito, um fenômeno curioso acontece em Galway, a maioria das garotas dessa cidade são como a garota da canção de Steve Earle. Cabelos pretos e olhos azuis. No fundo ele queria mesmo era encontrar a sua Galway girl. Isso aconteceu muito depois, mas não foi em Galway.
Seu destino era Edinburgh, Escócia, naquele dia. Galway fica na costa oeste da Irlanda, Edinburgh fica na costa leste da Escócia. Tudo que ele tinha era um ticket de trem até Dublin, Irlanda, um roteiro em sua cabeça e a certeza que dormiria aquela noite na terra de Willian Wallace.
Às 6:10 am ele embarca para Dublin que fica na costa leste da Irlanda. A Irlanda é um país pequeno, após 3 horas e 40 minutos no trem ele desembarca na estação Connolly. Dalí segue de Luas (VLC's que circulam toda Dublin de forma muito eficiente) para a estação Heuston. Até aquele dia ninguém havia lhe cobrado qualquer ticket.
- Olá bom dia garoto! Por favor, deixe-me validar seu ticket.
- Claro.
- Esse ticket não é válido para o Luas.
- Veja senhor, aqui diz que posso pegar qualquer transporte durante todo o dia na Irish Rail.
- Você tem razão. Mas o Luas não faz parte da rede férrea, ele é um transporte urbano. E por isso seu ticket não é válido. Você terá que pagar uma multa de 150 euros por transitar sem o ticket.
- Mas onde há a informação que o Luas não faz parte? Bom, não vou discutir com o senhor. É o seu trabalho, só posso lhe pedir desculpas, eu sinceramente não sabia, como procederemos então?
- Pra onde você está indo garoto?
- Pretendo chegar em Edinburgh até o fim do dia.
- Está indo para o aeroporto, então.
- Não senhor, vou tomar um ônibus para Belfast e de lá pretendo cruzar o mar do norte.
- A nado? - Risos -
- Se for preciso. - Risos - Mas, não. Ouvi dizer que há um navio que zarpa de Belfast rumo a Glasgow, de lá pretendo tomar outro trem até Edinburgh.
- Você tem uma longa jornada pela frente garoto, admiro sua disposição e duvido muito do seu sucesso nessa empreitada. Pois bem, não serei eu um empecilho, acho que você encontrará muitos outros. Façamos um acordo, tudo bem? Você vai descer em Heuston e comprar um ticket do Luas, e vamos esquecer a multa.
- Feito. Muitíssimo obrigado senhor.
- Seja honesto, e boa viagem garoto!
- Obrigado, e tenha um ótimo dia senhor.
Ele desceu e comprou o Ticket.
Seis horas e meia depois ele desembarca na estação central de Belfast, 20 minutos antes do navio zarpar do porto de Belfast, o mesmo de onde zarpou o Titanic. Mas o porto ficava a 15 minutos e o próximo ônibus sairia em meia hora. Ele perdeu o Navio para Glasgow.
- Não tenho reserva em nenhum hostel, além do hostel em Edinburgh. Hoje é quinta feira qualquer hostel estará o dobro do preço, preciso chegar a Edinburgh.
Uma funcionária da estação estava passando.
- Por favor senhora, preciso chegar em Edinburgh ainda hoje, além do navio que sai do porto todos os dias às 16:30, há algum outro navio, lancha, bote ou qualquer coisa que cruze o mar?
- É melhor você ir até o porto, lá eles lhe informarão melhor.
Quarenta minutos depois ele desembarcava no porto de Belfast. O cheiro de mar tomou-lhe o naris como jamais havia acontecido, gaivotas voavam sobre sua cabeça. Ele correu até uma bilheteria.
- Senhor, há qualquer transporte para qualquer cidade escocesa ainda hoje?
- Está fugindo da polícia garoto? - risos sem dente.
- Não senhor, na verdade não quero fugir dos meus planos. - risos com dentes.
- Sendo assim, há um navio saindo em 40 minutos. Mas é um cruzeiro, passará por Glasgow ainda hoje.
- Certo, de lá eu me viro. Me venda um ticket. Quanto me custará?
- Não faço idéia garoto, não vendo ticket apenas retiro e valido. Você pode comprá-los pela internet.
- Ótimo! Era só o que faltava, onde vou arrumar uma conexão aqui?
- Há um café dentro da área de embarque.
- E como chego lá?
- Precisa de um ticket, você não comprou nenhum?
- Não senhor.
- Tente conectar do lado de fora, é de graça.
- Obrigado.
Em pé, se equilibrando com uma mochila de 27 kg nas costas e um note book na mão, ele comemora feliz a compra.
- Pronto preciso retirar meu ticket, consegui comprar.
- Ok, preciso da guia impressa.
- Como assim? Não tenho como imprimir, só possuo o número.
- Você vai me complicar garoto, não costumo fazer isso, mas qual seu nome?
- Obrigado senhor, é Weivson.
- Que raios de nome é esse? Com esse nome você poderia cruzar o mar surfando! - Risos sem dentes e ensurdecedores.
- Tome. Lembre-se de retirar seu ticket de trem, de Glasgow para Edinburgh, na estação. E tome cuidado você precisará trocar de estação em Falkirk, e terá apenas15 minutos pra isso. A pé, sem pressa, levará 10 minutos caminhando.
- Meu deus isso vai dar merda.
- O que disse garoto?
- Desculpa praguejei em minha língua.
Risos sem dente - Boa sorte garoto, e seja lá do que está fugindo, saiba que nunca é longe o suficiente.
- O senhor já ouviu falar de um jogo chamado RPG?
- Não gosto de jogos, mas o que quer dizer?
- Esqueça isso, apenas me senti no jogo agora. Obrigado e boa noite!
Na área de embarque sua aflição aumenta. Não há mais ninguém. Todos já haviam embarcado. Faltavam apenas 5 minutos para o navio zarpar. Ele entrou em um túnel cumprido. No fim do túnel havia apenas mais um corredor. Uma buzina grave soou do lado de fora. Era o navio zarpando, ele sabia. Ela soou mais 4 vezes. Desespero. Medo. Raiva. Frustração. Ele tinha certeza, perdera o navio novamente.

A sua volta havia apenas lojas, uma praça de alimentação e todo tipo de pessoas caminhando. Havia também uma mulher de uniforme, parecia trabalhar ali.
- Senhora, desculpe. Me ajude. Sabe como chego até lá? - Ele mostra a mulher o ticket.
- O que procura exatamente senhor?
- Quero pegar esse navio.
- O senhor procura algum lugar específico?
- Sim, embarcar.
- Desculpa senhor não compreendo. O Navio zarpou há 15 minutos.
- Sério? Droga!
- Mas se é um assento que procura, fique a vontade. Se quer um lugar mais reservado, após a praça de alimentação há poltronas perto das janelas, o senhor pode observar o céu, nessa época é comum avistarmos um resquício da aurora bureal, de alto mar. Talvez o senhor tenha sorte.
- Você disse alto mar?
- Sim senhor, alcançaremos em 10 minutos, já que zarpamos há 15 como lhe disse.
Alegria. Euforia. Felicidade. Excitação.
- Obrigado, senhora.
Ele saiu aliviado, procurando uma janela. Não podia acreditar que estava em um navio.
- Como é possível? isso é um navio? Achei qeu haveriam poltronas numeradas. Há um shopping aqui dentro.
Ele caminhou por todo o "shopping" atravessou a praça de alimentação e sentou-se próximo a uma janela. Dali ele pode avistar a costa Irlandesa ficando para traz. Ele havia deixado aquela terra sem perceber. Sentiu um nó na garganta. Uma tristeza lhe tomou conta do peito. Chorou, ao sentir que ela fizera tudo para que ele não partisse, mas que foi cuidadosa ao deixa-lo ir sem que percebesse. Arrepiou-se ao imaginar que ela lhe acenava um adeus. Ele amou aquela terra antes de pisa-la. Ele esperou ansioso o dia de seu encontro. É ali que ele quer repousar, um dia.
Minutos depois sentiu o balançar do navio, leve mas constante. Sentiu um enjoou. Estava com fome e comeu. Se arrependeu, mas ficou bem. Já estava em alto mar.
Uma hora e meia depois desembarcou em Glasgow. Pediu informação sobre onde poderia tomar o trem para Edinburgh. Lhe deram uma informação errada, que quase o fez perder o trem novamente. Lembrou-se que precisaria retirar o ticket para o trem.
- Droga, como assim preciso estar com o cartão de crédito que comprei a passagem?
- Sim senhor, é simple é só apresentar o cartão.
- Mas foi minha mãe que comprou pela internet para mim. E ela está no brasil.
- Bom, sendo assim. É... nossa, como é possível? - O homem tentava entender a situação, pareceu não estar habituado com esses "jeitinhos".
- Sim é possível, minha mãe comprou pra mim e eu retirei o de navio, e agora quero retirar o de trem. - Na verdade ele mesmo havia comprado o ticket, mas com os dados de cartão da mãe.
- Ok, tome e corra porque o trem está saindo. - O homem demonstrava ter desistido de tentar entender, mas deu o ticket.
Após embarcar em um trem que julgou ser fantasma o garoto procurou um lugar quente para ficar. Ele não estava habituado com a falta de calor. Já havia pego baixas temperaturas, mas não havia sentido o que estava sentindo. Falta de calor em seu corpo. Não comera nada, andou muito. Muito stress, nervosismo. Não havia ninguém no trem, exceto uma senhora na última fileira. Ele se sentou e exausto adormeceu. Minutos depois acordou com uma gargalhada sinistra. O trem estava cheio. Perdido no tempo e no percurso ele se informou.
- Já Passamos de Falkirk, senhora?
- Ainda não. todos desceremos lá. A esta hora esse trem só vai até lá.
Minutos depois ele desceu em Falkirk, seguiu para a outra estação como se soubesse onde era. Apenas desceu do trem se informou quanto a direção e foi. Seguro. Certo de que estava no caminho correto, sem questionar seu não conhecimento da cidade. Ele foi. E chegou 5 minutos antes do trem partir. A noite estava alta, passava das 22h, estava muito frio. Falkirk é uma cidade de interior. Velhas construções, ruas estreitas. E muitos pubs pelo caminho até a estação.
Após quase uma hora dentro do trem, todos dormiam. Ele olhou pela janela, o trem parava em uma estação, das muitas pelo caminho. Ele ouvia "Man of the hour" do Pearl Jam. Especificamente o verso que diz "A snow flakes falls in may". Nesse instante como em um passo de mágica ou uma cena dirigida de um filme, pela primeira vez em sua vida ele viu um floco de neve caindo. Seu primeiro floco de neve.
- Se eu contar isso ninguém vai acreditar! É muito perfeito pra ser verdade! Caramba é NEVE!
Uma senhora que estava do lado, adormecida acordou com o falatório autista do garoto. Assustada ela olhou imediatamente para a direção da janela, para onde o garoto olhava de olhos regalados, um sorriso trouxa e um dedo apontado.
- It's Snowing! - A senhora olhou pra fora e praguejou. Todos pareciam muito decepcionados com o fato de estar nevando. Menos ele. Eles estava eufórico, feliz. Queria descer ali mesmo pra dançar na neve, fazer anjinho no chão. Aparar com a boca um monte daqueles floquinhos que caiam. Mas ele se conteve, e a pesar de surpreso, em princípio, com a decepção de todos no trem, compreendeu o motivo deles. Esperou ansioso a chegada em seu destino.
Desembarcando em Edinburgh procurou logo sair da estação. A primeira coisa que fez foi se jogar em um monte de neve que havia logo na saída. Todos olhavam desconfiados para o louco que se jogava num monte de neve, mas ele não se importava. começou então sua caminhada a procura do hostel. Mas beirava a meia noite o transito nas ruas era de arruaceiros voltando de festas, ao que parecia, regadas a muito álcool. Os carros transitavam com dificuldade. As pessoas também. Mas havia um maluco patinando na neve, caíndo e levantando feliz. Parecia mais embriagado qeu os arruaceiros. Ele estava muito feliz! Ele não se importava. Mas caminhou muito, não encontrou hostel, estava deslumbrado demais para achar algo naquela cidade. No outro dia ficou feliz de ter chegado de noite e não ter percebido a vista hipnótica do lugar onde havia desembarcado. Ele desistiu e chamou um táxi.
- Me leve ao hostel mais próximo, por favor. - Pela primeira vez andava nos típicos táxis do Reino Unido.

" EU CONSEGUI, cruzei um mar e dois países de costa a costa, em apenas um dia. Por terra e mar! Faço essa anotação e vou me deitar tranqüilo, exausto, porém feliz e com a melhor sensação do mundo. A da CONQUISTA
Edinburgh - Escócia
00:15 27 de novembro de 2010"

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Aprendendo a beber cerveja


Bruges - Bélgica
Em alguma noite do mês de outubro

Depois de caminhar por todo o dia pela pequena e medieval cidade de Bruges, ele resolve prosseguir em sua dieta inédita e premeditada. Chocolate e cerveja, por uma semana. - Há cerca de 150 cervejas diferentes só nessa cidade, e mais de 30 fábricas do melhor chocolate do mundo. Por que eu haveria de comer outra coisa? - Caminhou por mais duas ruas pavimentadas por pedras, como cerca de 90% da cidade, rodeado de prédios antiqüíssimos e igrejas góticas, além das construções mais antigas que já teve contato.

Entrou num pequeno Pub enterrado no chão. A porta era estreita e pequena, muito baixa mesmo. Ele já estivera ali, por três vezes. Haviam muitas opções de cerveja, todas expostas em prateleiras de madeira, pareciam ser muito antigas. Ele sentou-se em frente ao balcão, daqueles que aparecem nos filmes. Ele sempre quis sentar-se nesses lugares onde você fala diretamente com o garçom, que seca os copos com um pano o tempo todo, e sempre sentia a mesma sensação. - Me sinto em um filme! - Pediu uma cerveja para a mesmo moça dos três dias anteriores.
- De onde você é rapaz?
- De onde você diria que sou?
- A julgar pela curiosidade com que bebe, não diria que é nem Irlandês, nem alemão e tão pouco belga, mas acho que você é Italiano.
- Não, passou longe.
- Catalão, acho, pelo sotaque. - Ela lhe serviu a cerveja.
- Meu sotaque? Sério? Que engraçado! Mas errou de novo.
- Então vamos tentar pelo seu nome, qual o seu nome?
- Você não descobrirá pelo meu nome. - Ele sorriu e a fez rir com seu nome.
- Você deve ser americano, então, havaiano provavelmente, mas com essa cara e essa cor?
- Sou Brasileiro - A moça de olhos grandes e pele corada, ficou vermelha e com os maiores olhos que ele já havia visto, até aquele dia. Ele bebeu sua cerveja, enquanto ela sorria sem graça.
- Jamais diria. Já vi alguns brasileiros por aqui, mas nenhum se parece com você. Como é o seu país?
- HEY KID.LONG HAIR, WITHOUT RESPECT. COME HERE!
Uma voz trêmula, esbravejou em um canto pouco iluminado do Pub, rimando, quase cantando. Era amistosa, mas ameaçadora também.
- Pode ir lá rapaz, depois continuamos nossa conversa.
- Acho que se eu for não haverá depois - Ele disse sorrindo e desconfiado.
- Pode ir, esse é o (não me lembro o
nome mas vamos chamá-lo de Wallace).
- VENHA GAROTO, EU NÂO TENHO MAIS DENTES PARA MORDÊ-LO ENTÃO NÃO SE PREOCUPE.
O Dono da voz estava sentado em duas cadeiras, uma banda de bunda em cada uma. Ele era da largura da mesa que sustentava cerca de 12 canecas de 1 litro de cerveja. Vazias. Aparentava ter cerca de 2m e alguns centímetros, e certamente pesava mais de 150kg. Cultivava uma barba ruiva que, de tão grande, repousava sobre sua enorme barriga. Tinha cabelos bagunçados e m
uito ralos, porém longos. Parecia ter acabado de ficar sob um sol de 40 graus, de tão vermelho. Me lembrou o personagem do Mel Gibson em coração valente, mas 80 kg mais gordo e 20 anos mais velho.

-
Sente-se aqui, menino! - Muito desconfiado e extremamente sem graça ele sentou olhando para a moça no balcão, enquanto ela acenava positivamente com a cabeça.
- Então, em que posso te ajudar, senhor?
- Ajudar? Você não está em condições de ajudar ninguém, garoto. Te observo por três dias e tenho uma curiosidade que me consome. Me responda, porque desrespeita a todos bebendo sua cerveja dessa maneira? Você sabe o trabalho que dá produzir um líquido tão saboroso quanto esse? Por que bebe como se bebesse água, que é insípida e sem graça? Vamos! - O velho ergueu a mão e esbravejou!
- Traga uma cerveja pro garoto! - Veio então a moça com uma caneca de 1L e colocou em cima da mesa, rindo baixinho.
- Vamos menino, vou lhe ensinar a beber. Preste bastante a
tenção, não gosto de repetir as coisas, as não ser as canecas. Você deve aprender a beber, mas já deve saber parar antes de começar. Você conhece seu limite?
- Não senhor, nunca bebi tanto. - O velho o olhou sério por alguns minutos, muito sério. Deu-lhe um tapa nas costas e gargalhou, estremecendo a mesa com todas as canecas vazias.
- Por um segundo achei que você falava sério garoto! Você é um comediante, gostei de você. - Embora acompanhasse o velho em sua risada o garoto falava sério, nuca havia bebido a ponto de embriagar-se, na verdade nunca havia bebido mais que 4 latinhas de cerveja consecutivas.
- Vamos pegue sua caneca e preste atenção. Solte todo o ar em seus pulmões. Agora coloque a caneca na boca e beba respirando o ar dentro dela. NÃO ENGULA AINDA! Mantenha a cerveja em sua boca por 3, 4, 5 segundos. Agora sim, deixe-a escorrer para dentro das suas entranhas. Suavemente. Agora solte o ar com a boca fechada, e sinta o aroma e o gosto da cerveja. Percebe? O
sabor evolui, ele muda e você sente um por um.
- MEU DEUS! É FANTÁSTICO! É como se houvesse um mistério escondido dentro de cada caneca, e só desvendei agora!
- Isso
mesmo, menino. Viu? É mágico! Você agora tem a chave do mistério. Aproveite cada gole!

E ali ele ficou por algumas horas, não conheceu o seu limite nesse dia, mas conheceu um dos mistérios que mudou sua vida.
Nunca mais bebeu cerveja da mesma forma.
Nunca mais encontrou o velho alquimista detentor do conhecimento etílico.
Nuca mais foi o mesmo, mas continuou se alimentando de chocolate e cerveja.
E também nunca descobriu como aquele velho conseguiu passar por aquela porta tão estreita.
Talvez seja este outro mistério.
Talvez seja esse o motivo do conhecimento apurado, talvez o velho esteja encerrado naquele lugar.
Ou talvez ele tenha entrado um garoto, quando ainda passava pela porta, descobriu um mistério dentro de uma garrafa e nunca mais saiu.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Andando entre gigantes

Era como um sonho. Na verdade ele nunca achou que passaria disso. Um sonho. Chegou a pensar que sua vida era uma farsa e assim como em "O SHOW DE TRUMAN" todos ao seu redor eram atores, e que tudo não passava de uma encenação inescrupulosa. Mas a cada minuto, a cada acontecimento, a cada instante o que era sonho se moldava real.

- Atenção senhores passageiros, pouso autorizado no aeroporto internacional Schiphol, Amsterdam. A temperatura em terra é de 11 graus...
Após 14 horas de vôo ele desembarcou em um aeroporto muito diferente do que esperava. O dia estava cinza, a luz que esperava ver não era assim, tão diferente - "dizem que a luz é diferente no hemisfério norte" - De fato era, mas ele descobriu isso depois.
Caminhando pelo corredor do aeroporto, apressadamente, seguindo o fluxo e não sabendo porque tinha pressa, ele olhava para fora e tentava identificar algo diferente, algum objeto, algum veículo - A vegetação, sim a vegetação tem que ser diferente - mas era difícil ver algo verde dali. Após alguns minutos caminhando e se misturando a outros grupos, que também caminhavam com uma pressa inexplicável, ele pode perceber que já não estava mais em sua pátria, com seu povo, com a sua língua. BABEL! Foi a primeira palavra que saltou em sua mente. Inúmeras línguas, e a cada passo mais uma pessoa diferente, mais uma língua, mais uma .... mais uma.
Descobriu, então, o motivo de tanta correria. Ele havia se misturado às pessoas que fariam conexão naquele aeroporto. Foi seu primeiro deslize e também o seu primeiro golpe de sorte, que ele prefere chamar de "cuidado divino". Naquele mesmo dia 3 pessoas foram deportadas, sem nenhum motivo aparente. Ele estaria nessa fila se não tivesse se perdido.
Após uma exaustiva, curiosa, decisiva e quase frustrante conversa com quem ele gosta de chamar de "O GUARDIÃO DAS FRONTEIRAS", (que merece um post exclusivo) passou para uma ala diferente do aeroporto. Agora há menos pessoas transitando, tudo está calmo e a tensão nos olhares deram lugar aos sorrisos e olhares vislumbrados.
- Onde está minha mala?
Após quase uma hora decorrida do seu desembarque as esteiras com as malas já haviam mudado. Mais uma vez ele foi uma exceção. Painel após painel, esteira após esteira, e nenhum sinal da sua mala. Haviam cerca de 30 esteiras no aeroporto, e na penúltima havia um objeto preto, maciço e solitário se movimentando em loop. - Finalmente! - Ele colocou sua mochila nas costas e rumou a saída da área de desembarque.
- Ei garoto, onde você pensa que vai?
Uma voz firme e severa o alcançou.
- Você precisa passar pela inspeção. Por que demorou tanto pra buscar a sua mala?
- Eu me perdi, depois fiquei muito tempo na imigração e já não sabia mais em qual esteira estava a minha mala.
- Coloque-a no raio X... O que é isso aqui?
O homem de voz grave apontou para 4 cubos brilhantes na tela.
- São... como posso dizer? Haammm... é... bolsas de temperatura... não, isso não faz sentido... é...
- Tire-os da mala por favor.
Sorrindo sem graça, o que agravava ainda mais sua situação, nervoso e com cara de "isso não ta acontecendo" tirou da mala 4 cobertores térmicos.
- Ah garoto! Você quase me matou de susto, esta vendo aqueles dois senhores ali? - O homem de voz firme e severa apontou para dois oficiais que seguravam tasers e observavam tudo de perto. - Pensei que finalmente daria a ordem que eles esperam há dias. Sabe, eles estão doidos pra usar os novos brinquedinhos. - Pensamentos dúbios passaram como raios pela mente, mas o garoto de cara assustada e mãos trêmulas tratou de afastar aquela interpretação que o faria escarnecer dos oficiais e daria o tão esperado motivo para eles usarem seus "brinquedinhos". Ele sorriu cinicamente, pegou sua mala e finalmente saiu da área de desembarque.

Uma visão lúcida
O cenário mudou novamente, o clima agora era de rotina. Como se tudo que acontecia naquele instante acontecesse o tempo todo. Ele parecia se esforçar em agir de forma rotineira, como se estivesse acostumado a aquele comportamento. - Impossível! Olha pra essa gente! Meu Deus de onde saíram essas pessoas? - Boca aberta, olhar vislumbrado e passos errantes. Sem destino. Sem direção. Ele vagava de um lado pra outro encarando todos tentando se passar por um local. Ele fitou uma mulher, se aproximou. E como uma criança prestando atenção em uma conversa de adultos, se olhava e olhava para a mulher, que ao perceber sorriu educadamente. Um homem passou muito perto, esbarrou em sua mochila, quase o derrubou. O antebraço do homem tinha a mesma medida que a metade do corpo do pequeno garoto vislumbrado.

A Visão do garoto
- Agora sim! Não acredito, eu consegui! Eu entrei! E agora? O que eu faço? Preciso parecer normal. Vamos tire esse sorriso da cara, vai! Aja naturalmente! EITA PORA! Olha o tamanho da cabeça daquele Throll! Meu Deus é o shrek albino! Puta que os pariu! Parece que todos aqui acabaram de sair de um jogo de basquete. Olha a versão loira do Shakille O'neal. Pra que esse exagero de corpo? Quanta gente diferente! Quanta gente igual! Que raios de alimentação esse povo teve na infância? Será que foi daqui que saiu o Biotônico Fontoura? São GIGANTES! É isso. Eu sabia, estava tudo parecendo real demais. Pára, não viaja não. Volte pra realidade. Olha aquele lá, parece o ciclope da saga do Odisseu. Nossa, lá vem o Hangrid! Queria que vissem esse cara, nunca mais me comparariam a essa figura. E o nariz daquela mulher, se ela vivesse na idade média não precisaria de lança para vencer uma justa. Deus, eu sou a menor pessoa nesse aeroporto, me sinto o próprio mico leão perto desses king kongs albinos! E olha lá, o Hangrid ta vindo na minha direção. Caracas, deixa eu ficar perto dessa mulher aqui. Nossa é a gigante mais linda que eu já vi. Ta certo que vi a primeira há menos de 10 minutos, mas ela é perfeita. Eu acho que precisaria de mais uns 20 centímetros de altura pra beijar o queixo dela. Quantos centímetros a mais eu precisaria ter para fazer essa mulher perceber que estou adentrando sua cavida... PÁRA cara! Que pensamento imbecil! Ei Hangrid, você está perto demais. Ei! Eita caralho! Filho da puta! Será que sou tão pequeno que ele não me viu! Talvez ele sinta, ao passar por cima de mim, aquela sensação quando pisamos em algo que estala e quebra embaixo dos nossos pés.

O garoto chegou em seu destino, levou alguns minutos para começar a se acostumar com a idéia de que era apenas um pequeno transeunte naquela imensidão de pessoas, em todos os sentidos. Sua jornada só estava começando, muito e muitos esperavam por ele. Mas as fantasias em sua cabeça não paravam e ele levaria um tempo, ainda, para perceber que o que ele julgava fantasia era agora a realidade. Ele pegou um trem, não pagou a passagem pois achou que era de graça, foi seu segundo deslize, e mais uma vez a sorte ou o "cuidado divino" sorriu pra ele, e permitiu que passasse ileso pela multa de 150 euros para quem transita sem bilhete nos trens.



...A caminho do hostel:

- Ah, vocês não me enganam. Acham mesmo que caí nessa? Eu sei que, enquanto eu estava preso naquela cápsula que vocês insistem em dizer que voa, vocês projetavam imagens nas telas de led, sim aquelas que vocês chamam de janela, e modificavam todo o cenário do lado de fora, pra fazer parecer que eu desceria em um outro país. Poxa vocês não economizaram no ar condicionado hein? Bom, e deve ter dado um trabalhão achar esses atores dessa altura. Eu só queria descobrir onde estão as câmeras...